sábado, junho 12, 2021
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Três fragmentos da história de Mineiros

Certamente, Mineiros, extremo Sudoeste Goiano, pra chegar onde está,  elegante e cheia  de requififes,  teve de passer não sei por quantos  fatos e  eventos historiográficos   que chegaram a ser notícia em jornais, sem, contudo, serem lembrados hoje em dia, a não ser por uma minoria dos mais velhos. É o caso  dos “revoltosos” que  passaram por aqui em 1925, deixando  medo e pânico; dentre outros, a dolorosa morte de José de Assis e Antônio  Carlos Paniago, em 14 de outubro de 1979, num trágico acidente de avião, em Iturama, Minas Gerais, tambem deixando sofrimentos e incríveis  dores  que não saem nos jornais. Coisa esquisita, que vira até livro, sem uma noticinha sequer na imprensa,  devendo ser por isso que o extraordinário verso do admirável Chico Buarque de Holanda, guardado na minha admiração, diz mais ou menos a mesma coisa, me ajudando explicar o que pretendo: “A dor da gente não sai no jornal”, por certo, se inserindo nessa rara sabedoria poética do Chico, as dores e aflições  que passaram  as pessoas que articularam e fizeram uma Greve de Professores da rede Municipal, emergindo um “pedaço” da história da rebeldia de Mineiros,  tão em voga no Brasil e pelo mundo afora; as que fundaram o Centro Espírita de Mineiros, evidenciando  outro “pedaço” da história, religiosa ou teológica daqui; e as que organizaram a bonita  Exposição de fotografias antigas, exibindo um dos começos  da  história arquitetônica ou cultural da cidade. Sinceramente, nunca ouvir dizer que os sofrimentos  citados  tenham sido objeto de informação  ou notícia de jornal. O fato da Greve dos Professores, que a história oficial ou “vista de cima”, denomina coisa de baderneiro ou revoltado, virou  notícia da Greve e não do sofrimento, no jornalzinho Folha de Mineiros, Ano I, nº 05, de 30 de abril de 1995, direção Elmar Brandão e Sandra S. Brandão, colaboração Fernando Brandão e Helton Gonçalves (Goizim), informando:MartinianoJSilvaMineiros

“GREVE – Os 186 professores da rede municipal paralisaram suas atividades na última sexta-feira, dia 28/04. Eles reivindicam da Prefeitura um aumento salarial de 100%. Justificando que o  orçamento do município não suporta o reajuste, uma vez que ele deveria ser estendido a todos os servidores municipais, o prefeito José  Antônio comprometeu-se a pagar os 40% previstos em lei. Os professores não aceitaram a contraproposta e foi criado o impasse.

Uma concentração em frente a Prefeitura Municipal, ocorrida  terça-feira, dia 02/05, oficializou a greve das escolas municipais. Até o fechamento desta edição prefeito e professores ainda não haviam chegado a um consenso”.

Importante  informação, que no dia seguinte, se os professores não tivessem continuado a greve,  teria sido esquecida, precisando, portanto, ser analisada e publicada noutros jornais e, sobretudo, em livros, alcançando assim status de perenidade, nem  que seja como migalha da história dos revoltados, ficando as dores e os sofrimentos como meras desventuras a-históricas. Ninguém se lembra delas.

O Centro Espírita, está em pleno funcionamento na Vila Santa Isabel, parte alta  da cidade,  onde a palavra “Vila” já virou “bairro” ou “setor”, compatível com a modernidade, devendo figurar apenas nalgum mapa antigo ou  documento embolorado. De todo modo, o Centro Espírita de Mineiros, é um dos mais ativos do Sudoeste, começando por administrar, com zelo, o  Abrigo Bezerra de Menezes e o Centro Educacional Infantil (CEI) Chico Xavier, desde 2012, cuidando de 75 crianças.  Quem nasceu primeiro, em âmbito jurídico, foi a Sociedade Espírita Allan Kardec de Mineiros (S.E.A.M.), fundada em 13 de abril de 1975, por Lourtônio Ferreira Paniago, casado com a professora Maria Aparecida Paniago, no reino eterno; Aloísio Paniago, também de saudosa memória, casado com Olinda Gomes Paniago, ora  os que a memória não me deixa mentir, talvez até porque,  à época, a pedido, acolhi em minha casa, bem cuidada pela Chica, por uma noite célebre e inesquecível, uma grande personalidade espírita brasileira, o notável orador, Divaldo Franco,  procedente da Bahia.

A Sociedade nasceu ligada à Federação Espírita do Estado de Goiás. Entidade de ordem privada, recebeu o Registro nº 43, no Cartório do 2º Ofício (Registro de Pessoas Jurídicas) de Mineiros.  Extrato do Estatuto publicado no Diário Oficial do Estado de Goiás, de 10 de junho do ano citado, página 11.  Segundo anotação manual que me chegou, acredito do querido Aloísio, o trabalho de ordem cultural e espiritual, já se destacava:

“A Sociedade encontra-se em franca atividade para o levantamento de um Centro Espírita, em terreno doado pela Prefeitura – com o assentamento da Câmara dos

Vereadores – Vila Santa Isabel”.

À mesma época, passaram ao escriba outra informação, impressa, espécie folhetim, que tem a ver com a Fundação referida:

“Lembra-se:

Se você está triste porque perdeu o seu amor, lembre-se daquele que não teve um amor para perder. Se você decepcionou-se com alguma coisa, lembre-se daquele cujo nascimento já foi uma decepção. Se você está cansado de trabalhar, lembre-se daquele que angustiado, procura um emprego. Se você reclama de uma comida mal feita, lembre-se daquele que anda faminto sem um pedaço de pão. Se você sofre porque um sonho seu foi desfeito, lembre-se daquele que vive em pesadelo. Se você está aborrecido constantemente, lembre-se daquele que espera um sorriso seu”, prosseguindo:

“Se você teve um sonho para perder, um trabalho para cansar-se, um sonho desfeito, uma tristeza para sentir, uma comida para reclamar, então, lembre-se de agradecer a Deus porque existem muitos, que dariam tudo para ficarem no seu lugar”, finalizando:  “Lembrança da primeira prévia em Mineiros-GO. Como preparativo ao “1º encontro da criança espírita e Evangelizadores” a realizar-se em Jataí-GO, nos dias 1 e 2  de maio de 1976”.

O  último fragmento, construtor desta  história, que não pode  ser efêmera, noticiado em  emissoras de rádio e redes sociais, também sem noticiar sobre as dores,  foi o Convite que recebi da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo local, através da hábil assessora, poeta e escritora Marta Brandão, para assistir à  Exposição de Fotografias Antigas, intítulada: “Mineiros era assim…” Realização, Prefeitura, promoção, Secretaria, titular, músico “João da Harpa” e Maestro Jonathan, que animaram o evento com um show de harpa e violão; apoio, Gráfica Digital, iniciativa da assessora citada, mostrando a rara Exposição de velhas fotografias mineirenses,  exibindo  bela  arquitetura de antigamente, ótima temática para estudos comparativos, nos fazendo recordar o passado que não volta mais, a não ser em efemérides como esta. No Convite, dentre outras, estão as antigas fotos da primeira escola urbana da cidade, construção em madeira, levantada na esquina da Praça Coronel  Joaquim Carrijo de Rezende, desaparecida; e a do primeiro time de futebol, o inesquecível Palmeiras, de tantas histórias e paixões,  ora apelidado  MEC (Mineros Esporte Club),  talvez ainda sem perceber que  perdeu a   identidade original, aliás, como vem ocorrendo com quase tudo que se construiu por aqui no passado ou poucos anos atrás,  pois, segundo  o bem informado publicitário André Teles,

“Vivemos um momento da História no qual a mudança é tão veloz que só começamos a ver o presente quando ele está quase desaparecendo”.

Em que pese, o importante é que a Exposição teve abertura solene em 13 de maio de 2013, indo até o dia 19, no atraente auditório do IPÊ SHOPPING, “O melhor da vida em um lugar”, preparado com esmero por Danilo Mello; onde foi muito visitada, apreciada e admirada, inclusive cá pelo escrevinhador e Chica, ali deixando o nosso ardente autógrafo de recordação. Quem visitou a Exposição, sem muita curiosidade intelectual, esquecido das dores do mundo, talvez nem tenha percebido a sua importância histórica nesse tempo no qual o passado desaparece como se fora um relâmpago, deixando a idiotice pós-moderna tomar conta, inclusive  da mediocridade, irmãzinha gêmea da babaquice, achando que entende de todos os saberes, arte, cultura, filosofia, sabedoria e até de Clio, a misteriosa musa da História.  Marta e equipe (Cleuza, Janaina, Renato, Jorcy, Ivamir, Carlos) não me deixe morrer de tédio. Faça outras exposições, também em Semana Nacional de Museus.

(Martiniano J. Silva, escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e da Mineirense de letras e Artes, IHG-GO, UBE-GO, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM – martinianojsilva@yahoo.com.br)

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