terça-feira, junho 15, 2021
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Encomendação das Almas – Mineiros de Antigamente

Aqui sim era praticado o ritual da cultura popular conhecido por encomendação das almas, praticado no período da quaresma com o objetivo de rogar preces em favor das almas, visando seu progresso espiritual e alívio das penas. Curiosamente, esse rito é muito comum e ainda existente em muitas cidades de Minas Gerais.

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Encomendação das Almas – Rito antigo em Mineiros, comumente nos funerais.

Encomendação das almas, encomenda das almas, recomenda das … , recomendação … , reza … , alimentação … , lamentação … , procissão… , terno …, terço… e  reis … das almas. A vasta sinonímia reflete o pensamento popular acerca do significado social desta manifestação folclórica. Encomenda e suas variantes, falam do objetivo de se encomendar, ou recomendar as almas, aos cuidados divinos, por meio de preces, no sentido de aliviar-lhes as penas.

Compreendendo o rito

A morte como o mais desconhecido momento da vida humana, tem gerado ao longo dos séculos uma série de crenças, tabus, superstições, práticas, sendo seu folclore rico e complexo motivo para estudos .

Toda uma concepção religiosa da visão da agonia, da morte e do post-mortem, se interrelacionam com velhíssimas práticas medievais européias e mesmo mais remotas, advindas do paganismo. A encomendação é até certo ponto um rito coletivo, que alude à mais temida passagem humana.

Suas cantorias visam o sufrágio das almas do purgatório, dos assassinados, dos afogados, etc., mas, como bem observaram Gomes & Pereira, dirigem-se também aos vivos, admoestando-os a seguirem uma boa regra de conduta cristã, como condição para salvarem desde já as suas próprias almas : “onde vais, homem perdido? / ofender a Deus e a ti! / lá no inferno tem um fogo, / ai de ti, se lá cair…”

Depreende-se que o ritual tenha assim um valor educativo e preventivo. É uma caridade que retorna: relatam que todos temos necessidade de rezar pelos mortos porque também nós, em breve, estaremos sepultados e precisaremos de rezas. Se em vida oramos pelas almas, uma vez falecidos teremos quem reze pela nossa; caso contrário ela ficará

esquecida e não poderá ascender no purgatório, pois crêem, que são as preces recebidas que as fazem progredir, pela misericórdia divina, subindo das chamas em direção à luz.

O purgatório na concepção popular é um meio termo entre céu e inferno, com gradações, superiores e inferiores, respectivamente. É uma versão, ainda que imperfeita, do umbral espírita.

Outro aspecto funcional é o da encomenda como expressão de fé nas almas, tal como se tem nos santos como mediadores do sagrado. Assim, se a folia é uma manifestação consagrada aos Santos Reis e a congada à Senhora do Rosário, a recomenda é consagrada às almas. É uma forma devocional de se manifestarem seus devotos a elas, como um dançador ou promesseiro faria uma dança de São Gonçalo para o santo português de Amarante. As graças recebidas por intermédio das almas, podem ter a gratidão do devoto externada sob a forma de uma encomendação de almas.

Embora pouco abordada pelos estudiosos, tal devoção é muito maior que se supõe, ultrapassando em muito à de vários santos . A igreja se viu obrigada a abrir concessões para o gigantesco número de devotos que abraçam essa crença. Nota-se nos livros de intenções de missas, a quantidade de celebrações pelas almas, pedindo isto ou aquilo, ou em ação de graças, ultrapassando disparado qualquer outra intenção, como verifiquei superficialmente em São João del-Rei, embora não tenha realizado estatística a respeito. Nessa cidade, onde centro minhas observações, a visita dos fiéis ao cemitério na segunda-feira (dia votivo das almas) é sempre acentuada. Acendem muito mais velas brancas, em relação aos demais dias da semana. As missas de segunda-feira, costumam ser as que mais enchem as igrejas e em alguns casos acumulam mais fiéis que as de domingo. Ficou célebre a “missa d’alva”, na aurora, 5 horas, que se realizava na catedral basílica de Nossa Senhora do Pilar. Ficou popularmente conhecida por “missa das almas”.

 

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