Zé Cheiroso

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Não fosse pela sua forma gentil, comunicativa e culta de ser, nosso personagem seria mero desconhecido, quiçá, um mendigo. Na minúscula cidadezinha nos idos de 1960, se passou esta curiosa e intrigante história.
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Assim que chegou com seu kit andarilho: vestes surradas cheirando a gambá, mala sem alça nas costas e sapatos com ventilação para os dedos minguinhos, ganhou de pronto o apelido de – Ze Cheiroso.

Banho, uma vez por quinzena senão estragava a pele. Desodorante e higiene bucal nem pensar – causavam câncer na gengiva, profetizava o nosso mais novo habitante. Fumava feito um caipora, mas tomava pouca cachaça –, uma lapada no almoço outra no jantar. Almoço? Jantar? Raramente alguém o via comendo, mas com certeza alguma boa alma sempre lhe dava um prato de comida, discretamente, devido ao seu orgulho em aceitar “esmolas”.

Dizia que deixou o curso de direito no quarto ano, pela decepção amorosa sofrida. Sua noiva lhe trocou por outro marmanjo, dias antes do casamento. Desiludido, deixou tudo para trás e resolveu vagar a esmo pelo mundo. Para nós, era muito difícil entender sua insana atitude. Como alguém, quase advogado, poderia ter cometido tamanha estupidez?

Sua verve fluía de forma ordenada e com perfeita entonação de voz. Todos paravam para ouvi-lo. Tanto é verdade que até cogitou – se dar-lhe um banho de loja e lança-lo candidato a vereador. Mesmo duvidando da veracidade dos seus “causos”, viajávamos aos lugares por ele descritos, como se lá estivéssemos.

Os poucos proprietários de caminhões que havia na cidade, quando em viagem para a capital São Paulo, o convidavam para ser o guia – conhecia a cidade na palma da mão. Entre muitas coisas que fez na vida, uma delas foi ser caminhoneiro. Dizia também ter sido chefe de gabinete de um senador famoso na época – Auro de Moura Andrade.

Cheiroso tinha sempre uma frase de efeito na ponta da língua para as mais diferentes situações. Quando questionado qual a razão de ter deixado sua herança para traz, dizia – nos que seu pai era um homem de posse, respondia com seu largo sorriso. – Sou um sujeito rico atualmente, antes sim eu era pobre, meu pai foi um homem difícil de lidar, nunca tive liberdade. O dinheiro é ótimo, quase perfeito. Ele é capaz de tirar a pessoa da pobreza, mas nunca será capaz de tirar a pobreza da pessoa!

Gostava de citar a frase e por vezes seu autor: “amo a liberdade, por isso, as coisas que amo, deixo – as livres, se elas voltarem a mim é porque as conquistei, se não voltarem, é porque nunca as tive”. Assim era Zé Cheiroso, um frasista nato!

Gentil e de bom coração ao extremo, dividia o único pedaço de pão com qualquer um que se aproximasse, enquanto comia. Para se multiplicar, o primeiro passo é saber dividir, nos ensinava. Ao ver uma pessoa mais velha carregando objetos, logo se oferecia para ajudar e não media esforço para deixar a encomenda em seu destino final.

Numa manhã de inverno, o madrugador e pontual Cheiroso, não apareceu em frente do pequeno armazém, onde fazia ponto. O cadê o Zé, cadê o Zé, tomou conta da cidade. – Alguém sabe onde ele mora?

Ninguém sabia, porque ao escurecer o Zé sumia igual uma folha de papel ao vento. De repente surge um jovem e diz: – eu sei onde ele mora. – Então diga. – Mora no cemitério. – Como assim? – Eu o vi pulando o muro ao anoitecer, e pulando de volta ao amanhecer. – Vamos dar uma procurada, então, retrucou o coveiro interessado em seu paradeiro.

Lá estava o coitado do Zé, já sem vida e enrolado num roto cobertor, embaixo da marquise do mausoléu de família tradicional. A comoção foi geral. Agora surge a pergunta. Quem irá cuidar do entêrro do pobre? – Roupas para vesti-lo alguém tem?

Em poucos minutos chegou toda indumentária solicitada para trocá-lo. Sapatos, terno, camisa e gravata. De barba feita e os cabelos aparados, o pobre ficou elegante e com leve sorriso, assim como foi em vida.

Guardei para sempre mais uma de suas frases: – “É simples ser feliz. Difícil é ser simples”!

E VIVA O ENIGMÁTICO ZÉ CHEIROSO!

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Osvaldo Piccinin, engenheiro agrônomo, formado pela USP-Esalq, em 1973. Natural de Ibaté, é empresário e agricultor e mora em Campo Grande/MS, colunista do site Mineiros.com, email: osvaldo.piccinin@agroamazonia.com.br.
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