Uma cidade ornamentada na evolução urbana acelerada do século XXI

Fragmentar a história de Mineiros implica, também, alcançar seu status de comarca em 1944, tornando-se uma cidade ornamentada onde quase ninguém percebe seus problemas e seus conflitos, na evolução urbana acelerada do século XXI.
Além do âmbito judiciário, deslembrado, que tento resgatar no livro “Sombras do Coronelismo na História do Judiciário” (2014), é um parâmetro para poder dizer que sua história não pode e nem deve ser escrita somente de acordo com velhos paradigmas ou avoengas regras cronológicas que, além de esconder a verdade historiográfica em diferentes “ângulos”, ofendem e mutilam outras tantas áreas do conhecimento, sobretudo científico, excluindo os chamados a-históricos e outros tantos marginalizados pela lógica racional dos donos do poder, desrespeitadores até de Clio, musa da História, precisando, por conseguinte, ser narrada de modo mais justo e abrangente, podendo, assim, usar a “síntese” e escrevê-la através de “pedaços”, por estranhos que sejam, pra não dizer “em migalhas”, como escreveria o consagrado historiador francês François Dosse (1994), dando-se alguma chance aos marginalizados por ela, assim como a outras áreas do conhecimento, também esquecidas, como arte, becos, cultura, esquinas, onde estão os loucos, inclusive varridos, o corpo, o antigo cabaré de luz vermelha, o “fecha-nunca” e outros assuntos e “seres”, humanos ou não, como o canto da cigarra, o chiado dos pardais, o pouso das araras azuis, as plantas de jardins, fundos de quintais e pomares do campo, que tantas vezes identificam a procedência histórica dos donos ou moradores em um pé de umbuzeiro dos baianos; num pinheiro de folha dura, pontuda, dos paranaenses; nos eucaliptos tão carentes de água, dos paulistas e gaúchos; e nas jabuticabeiras, laranjais, bananais e outras frutíferas, da forte tradição goiana.

Contudo, atendendo à dimensão cronológica do tempo, ao condicionamento globalizante “pós-moderno” e ao incrível avanço tecnológico das redes sociais, evidenciando um interessante 5º poder republicano, vislumbrando a futurosa democracia digital, ainda haveria alguma história ou geografia regional, algo ou assunto, podendo ser analisado, estudado ou glosado assim? Havendo ou não, percebo que não posso entender e assimilar o presente, de onde tento divisar o futuro, sem compreender o passado, pois não acredito que o vetusto método histórico consiga desaparecer. Aliás, segundo George Orwell, “Aquele que tem o controle do passado tem o controle do futuro”; devendo ser por isso, por certo, que devo prosseguir narrando a história de Mineiros, em fragmentos, no intuito de compreendê-la em toda a sua complexidade e grandeza ontológica, para não dizer metafísica, sem deixar de ser mágica, memorial, urbana, rural, cultural, etnológica, de gênero, religiosa, econômica, política, fática, mítica, lendária, folclórica, do cotidiano, do imaginário, legislativa, turística, não podendo esquecer a distrital (houve por aqui, antes dos moteis rotativos liberados por alvará municipal, um famoso cabaré de luz vermelha), me sugerindo o título “distrito da luz vermelha”, ainda me instigando a escrever um romance histórico.

Quer dizer: todos os “pedaços“ lembrados, como escrevi alhures, merecem ser historiados por algum historiador, algum merecimento ou alguma virtude, querendo ser verdade histórica, objetiva, subjetiva, serial ou outros nomes, com os quais, decerto, poder-se-á, conforme o historiador inglês Edward Hallet Car: “ver o passado através dos olhos do presente e à luz dos seus problemas”, podendo assim inferir, que já existe na minha fascinante Mineiros a tal filosofia da história, inventada por Voltaire, me ensinando o que realmente é digno de relato e registro em história.

Acredito ser por isso, que em 1964, já nos meus primeiros relacionamentos com Mineiros através da extremada Chica (Francisca R. Silva), namorada e esposa que me trouxe pra essa terra, que, além de fio condutor dos meus escritos e de tão fortes os galanteios, me inspirou escrever um romance, quando o escriba não dispunha de clareza alguma do que seriam funções ou requisitos básicos com que se escreve um romance. Não raro, foi no temerário final da minha adolescência de apaixonado namoro, que escrevi: “A moça que ria muito”, no qual vi a primeira cafanga já no fato de ser bissexto e cacófito. Mesmo saindo notinhas em jornais, me deixando a ilusão e até a sensação de gente importante, fiquei dez anos sem publicar livro, os profetas me pedindo para pôr o pé no chão, desconfiar e mudar de gênero, mesmo mantendo a vontade de escrever outro. Contudo, não havia jeito: percebi que o tal “Moça que ria muito”, não concorreria com ninguém, não me levaria pro púlpito da grandeza intelectual dos imortais. Não poderia viver de ilusões perdidas. Em que pese, é lá que estão os meus sentimentos e emoções em âmbito literário, na minha estreia literária, num livrinho de ficção, escrito à mão, num caderno verde, ao trafegar de ônibus enlameados ou poeirentos, na rodovia que virou BR-060, querendo abraçar namorada e vender livros. Seja como for, foi nele que descrevi meus enredos, personagens, paixões e paisagens relacionados com o cenário bucólico dessas terras sudoestinas de Mineiros. Pensem! Foi lançado num clube grã-fino local, onde, queiram ou não, motivou o começo da história cultural da cidade, como se não bastasse o consolo que me vem de Cervantes (1547-1616), em Dom Quixote, parte II, cap. III: “Não há livro tão mau que não tenha algo de bom” (No hay libro tan malo que no tenga algo Bueno).

Deve ser por isso, que ainda na década de 1960, pensei e planejei publicar outro livro: Sombra dos Quilombos, saído do forno somente em 1974, motivado pela presença da comunidade quilombola do Cedro, próxima do centro urbano mineirense, ocasião em que tirei o assunto do silêncio e pus na região, no Estado e Brasil afora. Curioso: só mais recentemente é que percebi que ali escrevia só um “pedaço” da história do lugar, até então inédito e deslembrado, sendo assim que os negros “cedrinos” passaram a existir na história e todo mundo começou a entender os seus valores, com destaque na medicina popular. Em 1980, outro “pedaço”, Mineiros: memória cultural, tendo como foco principal o que havia feito a Academia Mineirense de Letras e Artes em seus dez anos de vida, fundada pelo escriba e alguns outros sonhadores. Em 1981, outra “porção” dessa história máscula, sem deixar de ser fragmento, Conflito de Limites Goiás-Mato Grosso, defesa goiana, abordando o conflito entre estados em terras mineirenses, perdidas para Mato Grosso por um descuido que a história relatará no futuro.

Em 1984, são “Traços da história de Mineiros”, dando maior abrangência e consistência ao assunto, num livro dos mais lidos que já escrevi por aqui, edição de cinco mil volumes, distribuída de graça numa festa da primeira Fegosoja (1984), dentre outros, organizada pelo Higino Piacentinni, Antônio Paniago e outros, patrocínio da Sucal Mineração Ltda, através do empresário Juarez França, de Jataí, dedicado a várias pessoas e: “Para Mineiros, adoção do Rui e do Vasco, terra da Chica e da Kátia, onde ainda muito devo nos traços da história”.

(Martiniano J. Silva, escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, Ubego, mestre em História Social pela UFG, professor universitário, articulista do DM – martinianojsilva@yahoo.com.br)

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