Silvia Parrat-Dayan explica a Indisciplina na Escola

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Pesquisadora da Universidade de Genebra defende que esse problema só pode ser enfrentado com a gestão participativa…

Todo gestor conhece de perto a dificuldade em lidar com situações de indisciplina. Não é raro sentir-se impotente e esgotado diante de alunos que parecem teimar em quebrar as normas da escola, se confrontar com colegas, professores e funcionários e não se comportar. Onde está o problema? No aluno? Na família? No professor? De acordo com Silvia Parrat-Dayan, pesquisadora dos Arquivos Jean Piaget, da Universidade de Genebra, na Suíça, a origem da indisciplina está numa crise que se abateu sobre escolas do mundo todo: o choque entre um modelo educativo ultrapassado e um público que está passando por transformações profundas.

No livro Como Enfrentar a Indisciplina na Escola, Silvia defende que, por trás do ato indisciplinado, está a urgente necessidade de repensar a relação do professor com o aluno e os problemas pedagógicos que são decorrentes dela. Ao fazer isso, a escola chama para si a responsabilidade de debater o comportamento inadequado (e, em casos mais extremos, a violência), em vez de tratá-los apenas como interferências externas. “A disciplina é importante no ambiente escolar não para haver um controle sobre os estudantes, mas como um elemento para facilitar as relações interpessoais e o processo de aprendizagem. E assim deve ser construída com os alunos”, explica.

  • Na entrevista concedida a NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR no fim de 2010, quando visitou o Brasil, a pesquisadora diz como a escola pode lidar com essa questão e encontrar boas soluções na gestão democrática e participativa.

Por que a indisciplina se tornou um problema para a Educação em países do mundo todo?

SILVIA PARRAT-DAYAN Teoricamente, em qualquer sistema, quando um dos fatores se altera, todo o conjunto teria de se modificar também. Com a escola, porém, isso não aconteceu. A sociedade mudou, assim como o público que a frequenta, mas ela continuou a seguir um modelo tradicional de organização e de relacionamento interpessoal. Nesse cenário, a indisciplina nada mais é do que o choque entre a cultura escolar e a dos alunos, pois uma não conhece nem compreende direito a outra e, ao mesmo tempo, ambas tentam impor a própria maneira de agir e conviver.

Geralmente, os atos de indisciplina vêm daqueles que vão mal na escola? Por que isso acontece?

SILVIA Porque os alunos com baixo desempenho se percebem excluídos do processo de ensino e aprendizagem, não recebem a atenção necessária para avançar e, por vezes, se sentem humilhados e segregados ao ser obrigados a aceitar valores tão diferentes e sem sentido para eles. Além disso, muitos escutam dos professores insinuações – ou até mesmo afirmações diretas – que colocam em xeque a capacidade de eles aprenderem. Não é difícil encontrar em um ambiente educativo – embora seja totalmente inadmissível – alguns profissionais que humilham e adotam atitudes discriminatórias. Diante desse cenário, esses jovens decidem não aderir ao mundo que lhes é oferecido dentro da escola e criam outra hierarquia de valores, em que a rebeldia e a violência imperam.

Como interpretar os atos indisciplinados e as agressões?

SILVIA Eles representam uma tentativa de os jovens defenderem a própria dignidade e restabelecerem o respeito que gostariam de ter. É claro que isso não justifica nenhum comportamento inadequado socialmente, mas, se os adultos compreenderem o funcionamento dessa relação, conseguirão pensar em medidas eficientes para evitá-lo. É importante lembrar que os estudantes que não demonstram rebeldia com o desrespeito que sofrem – os que são considerados disciplinados – muitas vezes escolhem um caminho nocivo: assumir um tipo de morte social, aceitando que, de fato, nada sabem e, assim, bloquear o próprio desenvolvimento.

O que se ensina – e como se ensina – também são fatores que influenciam o comportamento dos alunos?

SILVIA A definição do que ensinar nada mais é do que a concretização dos objetivos da escola. O que ela deseja realmente? Promover uma Educação de qualidade para todos? Romper com as desigualdades produzidas na sociedade? Proporcionar situações de convívio e socialização entre os alunos? Valorizar o conhecimento? Preparar os estudantes para um mundo em constante transformação? Para atingir as metas estabelecidas, os gestores decidem os conteúdos que serão ensinados e de que forma eles serão abordados. Por exemplo, ao planejar as aulas de uma língua estrangeira, a equipe deve se perguntar o que quer com ela. Ensinar apenas uma linguagem técnica? Transmitir a cultura de outro povo? Um pouco de tudo? As decisões pedagógicas são escolhas que devem sempre valorizar o potencial dos alunos e fazer com que eles cresçam e se desenvolvam cognitivamente.

Dá para acabar com a indisciplina?

SILVIA Creio que sim. Uma das maneiras mais eficientes é investir na socialização e na troca de experiências e de saberes tanto entre os estudantes como entre eles e os membros da equipe escolar – docentes, gestores e demais funcionários.

O que significa fazer um investimento em socialização?

SILVIA Basicamente, dedicar tempo para conhecer o outro. Uma boa maneira de iniciar esse processo é colocando-se no lugar desse outro e procurando entender seu ponto de vista. Muitas vezes, as crianças e os jovens nem sequer notam que fizeram algo que não deviam na sala de aula ou no pátio, pois agem como se estivessem em casa ou na rua. Afinal, foi assim que eles aprenderam e nunca tiveram outra referência. A escola erra ao querer apagar toda a vivência de um aluno quando ele entra no sistema de ensino, em vez de buscar conhecê-lo e respeitá-lo. Sabendo como meninos e meninas vivem e convivem fora da escola, gestores e professores entenderão boa parte do que se passa dentro dos muros. Porém isso não basta. É preciso estar atento para explicar os motivos que levam determinada conduta a não ser adequada sempre que ela acontece, seja por prejudicar a aprendizagem, seja por comprometer o convívio. E, claro, é imprescindível que esse diálogo aconteça com consideração e respeito pelo outro – e sem preconceitos.

É comum encontrar profissionais que trabalham na escola que pertencem à mesma comunidade dos estudantes. O conhecimento sobre o público, portanto, deveria ser maior ou mais fácil de adquirir. Porém alguns educadores negam essa realidade e até a repudiam. Por que isso acontece?

SILVIA Provavelmente porque eles foram envolvidos pela cultura escolar tradicional. Passam, assim, a acreditar que a sociedade espera que eles rejeitem a própria origem para terem condições de impor aos jovens uma nova maneira de se comportar. E isso é um equívoco.

Como mudar essa postura?

SILVIA É preciso passar por um novo processo de socialização – caminho que os profissionais da Educação não devem trilhar sozinhos, mas com os demais colegas. Nesse sentido, as instituições de ensino, como as conhecemos, precisam se reinventar e se tornar verdadeiramente democráticas, inclusive para resolver os problemas de indisciplina. Uma gestão participativa acredita e investe em mudanças nas salas de aula e no relacionamento entre professores, funcionários e gestores. Afinal, a escola é um espaço que educa também por meio da maneira como ela mesma funciona. Não se pode ensinar cidadania sem respeitar os princípios da democracia.

De que forma a falta de socialização provoca reflexos no comportamento de crianças e jovens?

SILVIA Muitos problemas podem surgir em cenários em que há diversidade se ela não é bem trabalhada. Se alunos de diferentes origens vão frequentar o mesmo lugar, é primordial haver um período de aculturação, um processo social que se caracteriza pelo intercâmbio e não pela imposição. As culturas que estão em contato vão se mesclar, dando origem a uma nova. Ou seja, tanto os alunos aprenderão outro padrão de comportamento quanto a escola vai ser obrigada a rever as normas sempre que receber novos grupos sociais. Geralmente, espera-se somente que os jovens se adaptem ao ambiente escolar – bastante diferente daquele em que vieram – sem nenhuma contrapartida.

Como as regras podem, ao mesmo tempo, atender às necessidades da escola e respeitar os alunos?

SILVIA Para o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), na escola em que há disciplina as normas não são impostas ou definidas unilateralmente, mas são fruto da elaboração conjunta. É essa interação que vai criar as condições necessárias para que se formem cidadãos responsáveis, cooperativos e capazes de coordenar diferentes pontos de vista. Construir juntos as normas de convivência é uma forma de respeitar todas as culturas presentes no ambiente escolar. Afinal, quando as regras são impostas, corre-se o risco de alguns alunos não se reconhecerem nelas.

Mesmo assim, certos tipos de decisões precisam ser tomados somente por adultos, certo?

SILVIA Sim, especialmente os que dizem respeito a punições. Isso porque os critérios de julgamento e as categorias morais, como a justiça e a verdade, ainda não estão formados nas crianças menores. Se, nessa fase, elas ficarem responsáveis por castigar ou sancionar outros colegas, podem agir com crueldade. Por outro lado, qualquer tipo de assunto pode ser debatido com estudantes de todas as idades. Uma ótima maneira de ouvir o outro e trocar ideias é colocar alunos de diferentes faixas etárias ou séries para compartilhar experiências e confrontar pontos de vista. Afinal, o debate é uma competência que deve ser ensinada pela escola, assim como falar, ouvir e ter espírito crítico. Sempre vale a pena lembrar que melhorar o comportamento nada tem a ver com silêncio na sala de aula ou falta de interação entre as pessoas. O intercâmbio deve ser incentivado constantemente, pois, sem ele, nada se constrói.

Como a gestão participativa e o respeito às culturas dos alunos se relacionam com a necessidade de a escola produzir novos atores sociais?

SILVIA O mundo e a sociedade mudaram e já sabemos que não é possível fechar os olhos para isso. Mas também não devemos nos acomodar ao novo status. Por exemplo, se o mundo é neoliberal, não significa que temos necessariamente de formar crianças para um mundo neoliberal. É preciso olhar para o sistema que temos hoje de maneira crítica e construtiva e ensinar os alunos a fazer o mesmo. Os jovens de gerações passadas acreditavam nos partidos políticos e eram politizados. Hoje, esse cenário é mais raro – o que não quer dizer que a juventude seja completamente descrente e não acredite em nada. Ela pode crer, sim, em novos projetos e aderir a novas ideias, algo que a escola deve promover. F.: Nova Escola.

BIBLIOGRAFIA

  • Como Enfrentar a Indisciplina na Escola, Silvia Parrat-Dayan, págs. 144, Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 29 reais
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2 COMENTÁRIOS

  1. Gostei muito da resenha do livro de Silvia Parrat-Dayan sobre indisciplina na escola. Vou comprar o livro e indicá-lo para meus alunos de Psicologia da Educação, na UFPI

    Muita grata
    Lina

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