A roça nunca saiu de mim

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Assim que me formei, passei um ano sem retornar à casa de meus pais, lugar de meu aconchego e porto seguro. Tres mil quilômetros nos separavam e minha sensação era de que eu havia ido morar, para sempre, no fim do mundo.

No Pará tudo era diferente: a cultura, os costumes, as comidas; enfim, nada a ver com o mundo em que fui criado de simplicidade e cumplicidade ao sabor da roça. Poucos amigos e muitos contratempos marcaram meu início de carreira em terras estranhas: doenças, solidão, insegurança e outras coisas típicas de um desmamado.

Minha moradia se resumia num minúsculo apartamento de vinte e cinco metros quadrados. Foi lá que aprendi: “chorar calado, pensar quieto e desabafar com as paredes”. O trabalho duro e às viagens intermináveis pela Amazonia, por terra, água e ar me ajudaram a vencer os desafios que a profissão me impunha.

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Gostar desta exuberante e misteriosa região foi uma questão de tempo. Meu encanto por Belém , onde morava, foi tamanho que lá também encontrei o verdadeiro amor de minha vida. Casei-me na centenária, rica e suntuosa igreja Nossa Senhora de Nazaré.

Sentia muito a falta de casa, mas tinha consciência que só seria possível voltar a passeio e por pouco tempo.  A viagem de volta demorou oito horas devido às incontáveis escalas. Uma eternidade pra quem estava morrendo de saudade! Mas este era o roteiro mais barato… E para quem tá começando a vida profissional, cada tostão economizado vira poupança.

Cheguei à minha pequena cidade, Ibaté, às nove horas da manhã, tomei benção de minha mãe e fui direto ao nosso sítio abraçar meu velho pai.  Plantando feijão de matraca, mal se deu conta de minha presença. Ao notar-me tirou o velho chapéu de palha, olhou para o céu e disse: – que grata surpresa é esta? – To sonhando ou é verdade? Pude notar em sua testa marcada pelo tempo e em seu peito com rala cabeleira, atordilhada, o suor escorrendo em bica. O calor estava infernal!

Não me contive e fui abraçá-lo fortemente. Num gesto suave me disse: – estou todo sujo e suado, deixe-me passar uma água no rosto. Ignorei seu apelo e o abracei com força beijando – lhe a testa. Pude sentir o sal de seu suor de homem honrado e trabalhador. Foi na labuta dura da roça que nos criou.

Em seguida convidou-me para repartir seu almoço. Sua marmita, recheada com “boia” fria, preparada com carinho pela minha mãe às quatro da manhã, encontra-se pendurada num galho de figueira protegida das formigas e animais intrusos.

Almoçou rápido, como de costume. Levantou-se de súbito, tomou uns bons goles de água fresca no bico do corote que, submerso num pequeno córrego, mantinha sua sagrada água fresquinha o dia todo –, sabedoria da roça. – Vou continuar o plantio porque a lua está boa e o tempo tá com cara

Não tive dúvida, passei a mão na matraca reserva e puxei o eito junto a ele. Passamos boas horas plantando e conversando. Ficou um tanto incomodado ao ver minha disposição e disse: – esse não é trabalho para um doutor formado, vai fazer bolhas e calos em suas mãos. – Pai pare com isso – retruquei. Você se esqueceu do quanto fui bom num cabo de enxada ou num facão de cortar cana?

Ao escurecer fomos embora e se tornou pensativo quando soube que eu voltaria ao Norte em poucos dias. Do seu silêncio brotavam minhas maiores lições. Ficou calado por uns instantes, engolindo um nó seco que travava sua garganta. – Prometo voltar com mais tempo, brevemente. Mal sabia ele que eu passaria quase mais um ano sem vê-lo. Nas cartas trocadas aliviávamos um pouco da saudade sentida.

Parti  com vontade de largar meu emprego e ficar por ali, perto do meu antigo ninho, mas segui viagem com a dorzinha da saudade latejando no peito. Assim é a vida, nem sempre temos o privilégio de escolher os caminhos de nossas jornadas. – Somos soldados a serviço da vida, profetizou-me. Faça sua cama enquanto é jovem e  tem disposição e saúde, porque um dia a velhice será inevitável. O mundo foi feito para ser desbravado por homens fortes. Aproveite sua juventude meu filho!

A roça nunca saiu de mim, foi lá que meu caráter e quase tudo que aprendi foram construídos. È na simplicidade que encontro inspiração para vencer os contratempos. É na simplicidade que chego à conclusão que vale a pena viver intensamente cada minuto da vida.

E VIVA A VIDA SIMPLES DA ROÇA!

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Osvaldo Piccinin, engenheiro agrônomo, formado pela USP-Esalq, em 1973. Natural de Ibaté, é empresário e agricultor e mora em Campo Grande/MS, colunista do site Mineiros.com, email: osvaldo.piccinin@agroamazonia.com.br.
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