“Aquela colcha de retalho que tu me destes, serviu como agasalho em nossa pobreza”…

O trechinho desta música conhecida pelos coroas e saudosistas como eu, nos faz voltar ao passado humilde que muitos tiveram ou ainda tem. Numa família italiana nada se perde, tudo se transforma, literalmente. osvaldopiccinin

A sobra de arroz vira bolinho, pão velho vira torrada ou farinha de rosca, as goiabas do quintal viram goiabada, barrigada de porco vira sabão e retalhos de pano novo, bem como pedaços de roupa velha, viram colchas. Sacos de açúcar cristal viram camisas, cirolões e muitas outras coisas.

Lembro-me de minha nona sentadinha em sua cadeira predileta, tecendo enormes colchas de retalhos – por horas e dias a fio. Uma para cada nora, para evitar ciúmes ou inveja entre elas.
Eita vidinha difícil! Não tínhamos luxo e sim fartura, porque quase tudo o que consumíamos de alimento era produzido por nós mesmos.

O primeiro par de sapatos novos eu ganhei aos onze anos, antes era na base da doação dos tios e primos mais velhos. Era considerado atrevimento um guri em tenra idade, comprar sapatos novos. O meu era dois números acima do pé.

A medida foi tirada com um pedaço de barbante, só que minha mãe, por conta e risco próprio, botou um pouco a mais. Dizia que era para durar mais devido eu estar em fase de crescimento.

Depois da primeira vez de uso e muitas bolhas, deixe-o descansar por dois longos anos até meus pés chegarem ao ponto de uso. Seu solado de papelão encharcava, em época de chuva, e fazia minha altura aumentar pelo menos três centímetros por conta disso.

Ainda falando sobre colcha de retalho, de vez em quando, minha avó pedia aos netos para recolher retalhos e roupas velhas na colônia, para coser suas colchas multicoloridas. As roupas usadas no duro trabalho da roça eram aproveitadas até o último suspiro. Eram remendos sobre remendos. Só depois de estarem em “repetição de miséria” se transformavam em belas colchas pelas suas habilidosas mãos.     Colchas estas, que aqueciam nosso corpo cansado, no inverno e nos protegiam das goteiras que caíam intermitentes, do velho e roto telhado, em dias chuvosos de verão. Forros? Nem em sonho, isso era coisa para os ricos!

Eu tinha muito cuidado e até certo ciúme da minha colcha colorida, além de me dar confôrto enfeitava minha cama e conferia um enorme charme no colchão de palha de milho. Ao acordar, pela manhã, eu tinha prazer em arrumar a cama que mais parecia um ninho de porco, de tão remexida. Armava as palhas do colchão, como se dizia, e a estendia para dar um acabamento no leito.

Gosto de falar das coisas simples. É uma maneira de nunca esquecer nossa origem e o nosso passado. Manter viva estas lembranças me ajuda a dar muito mais valor nas conquistas de hoje.  Foi lá, no passado, a construção do nosso alicerce!

“Nós estamos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo. A vida não pode ser compreendida sem olharmos para trás, mas só pode ser vivida se olharmos para frente”.

E VIVA A COLCHA DE RETALHO!
Osvaldo Piccinin, engenheiro agrônomo, formado pela USP-Esalq, em 1973. Natural de Ibaté, é empresário e agricultor e mora em Campo Grande/MS, colunista do site Mineiros.com, email: osvaldo.piccinin@agroamazonia.com.br.

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