Brincadeiras infantis em Mineiros e muito de nossa história

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Esse é um trecho muito gostoso de ler a respeito do olhar dos idosos de Mineiros a respeito das brincadeiras de criança do passado em nossa cidade. E também um estudo completo a respeito da história de mineiros, saboreie.*

O poema da escritora goiana, Cora Coralina, nos traz imagens que remetem à nossa infância.

Meus brinquedos… Coquilhos de palmeira, Bonecas de pano, Caquinhos de louça, Cavalinhos de forquilha, Viagens infindáveis… Meu mundo imaginário, mesclado à realidade. Cora Coralina (1985)

São imagens permeadas por brincadeiras e espaços que nos ligam a um mundo que permanece vivo em nossas memórias. Ao brincar, a criança vive experiências, cria e recria o seu mundo, buscando o seu desenvolvimento e integração com o mundo do adulto.Matriz Católica Mineiros

Nesse capítulo, contextualizaremos o cenário da pesquisa e as brincadeiras vivenciadas pelos idosos residentes no município de Mineiros-GO nas décadas de 1910 a 1940, analisando as categorias que emergiram nas entrevistas com esses idosos, tais como o trabalho, a violência e o gênero na infância.

A história da fundação de Mineiros começa neste período, da transição do Império para a República, época em que a densidade populacional era muito baixa para as enormes extensões de terra existentes. O sudoeste de Goiás e, especialmente, a região divisória com a Bahia e o Mato Grosso Goiano apenas começavam a ser desbravadas. No sudoeste goiano, as terras alcançavam valor irrisório, sendo consideradas impróprias para o cultivo e apropriadas para a criação de gado. Assim, um número significativo de pessoas de Minas Gerais migrou para essa região, a fim de criar gado. Ali se estabeleceram com suas famílias à procura de melhores condições de vida.

De acordo com os dados sistematizados pela Prefeitura Municipal de Mineiros no “Diagnóstico do Município de Mineiros” (1998), três correntes migratórias de povoamento se constituíram na região. Uma delas se refere aos primeiros homens brancos e negros, oriundos de Minas Gerais, a partir do ano de 1873, em busca de terras para a formação de fazendas para a criação extensiva de bovinos.

A partir de 1905, os nordestinos, especialmente os baianos, foram atraídos pela influência dos garimpos de ouro e diamantes. Já em 1970, os sulistas e outros segmentos foram atraídos pela fertilidade do solo, baixo preço das terras dos chapadões, a excelência do clima e a regular precipitação das chuvas que propiciam excelentes culturas de grãos, especialmente soja e milho.

Toda essa movimentação migratória tem relação direta com o próprio nome da cidade, que guarda até hoje variadas explicações. Uma delas é mencionada por Silva (1984: 12), que destaca a vida de um de um homem chamado João Mineiro, vindo das Minas Gerais, radicado “nestas paragens, às margens de um córrego, logo chamado ‘do Mineiro’, que é hoje o córrego Mineiros”; em seguida chegaram outros habitantes que
passaram a visitar João Mineiro e dizer: “Vamos lá no Mineiro!” (SILVA, 1984).

A segunda versão conta sobre um boi carreiro chamado “Mineiro”. Esse boi tinha a mania de empacar e, quando estava conduzindo pesadas carruagens, costumava atolar no córrego que tinha o nome de “Mineiro”. Seu dono, segundo consta, era João Mineiro, que “de ferrão em punho, tangia o boi: “Mineiro, Mineiro, ôia… levanta Mineiro”, advindo, certamente por isso , o topônimo Mineiros” (SILVA, 1984: 13).

Outra versão, considerada oficial, seguida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, é que o topônimo Mineiros teria surgido em decorrência da descoberta de diamantes pelos Irmãos Carrijo de Rezende, no Rio Verde, e que teria atraído aventureiros para a região. Os primeiros exploradores do mineral eram chamados de “mineiros”, originando o nome da cidade.

Silva (1984) argumenta que essa versão não pode ser sustentada porque: (…) os bandeirantes dos finais do século XIX ou de todo aquele período, com mais razão os que partiam de Minas para Goiás e Mato Grosso, já se encontravam imbuídos de uma outra preocupação econômica, a do boi, e não tanto, a do ouro, então reconhecidamente decadente. (p. 13) A exploração de diamantes que se encontrava com abundância no rio Verde (conhecido como Verdinho), distante 6 km de Mineiros, só passou a acontecer por volta de 1910 com a chegada dos baianos à região. Atualmente esse minério é muito escasso, embora ainda haja a presença de alguns garimpeiros à sua procura.

O que se sabe, através dos moradores e de pesquisa feita por Silva (1984), é que por volta de 1873 os Carrijo de Rezende, família composta por nove irmãos, irmãs e seus filhos, saíram de Minas Gerais, da região conhecida como Sertão da Farinha Podre – hoje Triângulo Mineiro, mais precisamente da região do Prata, lugar chamado Rocinha – em busca de riqueza, entre elas a terra para criar seu gado e abrigar suas famílias.

Trouxeram consigo todos os seus pertences, inclusive os escravos – negros considerados objetos, propriedades do homem branco – e se fixaram no local chamado Ressaca, localizado na Fazenda Flores.  Esta fala ocorreu durante a realização da entrevista com o Sr. J. Ao aproximar-se da situação da entrevista, o sobrinho do entrevistado colaborou no sentido de apresentar informações que corroborassem com as afirmações que vinham sendo feitas pelo entrevistado.

Segundo SILVA, M. J. e COSTA, J. D. – Mineiros: Terra e Povo. Secretaria Municipal de Educação, 1994. O povoamento de Mineiros aconteceu de forma dispersa; as famílias adquiriam suas terras, formando grandes fazendas. A Fazenda Flores a qual nos referimos possuía uma “área total de aproximadamente 30.161 alqueires goianos” (p.17).

[quote_right](…) vieram em carro de boi, conduzindo guaiacas, balas de espingarda, engenho de serra, oratórios de Divino, cinturões com bolsos de guardar dinheiro, além de outros apetrechos mais ou menos típicos e característicos de uma preocupação econômica latifundiária.[/quote_right] (SILVA, 1984: 14).

Ademais, trouxeram sementes para formar lavouras destinadas à subsistência e pastos para criar o gado. Mas não fizeram isso sozinhos; em todas as atividades desenvolvidas aqui na região utilizaram-se da mão-de-obra escrava trazida de Minas Gerais.

É importante destacar que a história do povoamento de Mineiros não foi feita só pela família Carrijo de Rezende. Também outras famílias que compõem a sociedade mineirense aqui chegaram nessa mesma época. Por volta de 1905, os nordestinos, mais especificamente os baianos, em sua maioria da região de Santana dos Brejos, saíram de suas cidades a pé, desbravando sertões em busca de outra condição de vida.

Muitos migrantes baianos passaram a se dedicar à atividade mineradora − especialmente à exploração de diamante − e outros exerceram atividades nos serviços públicos, como Coronel José Para-Assu, natural de Cachoeira – BA, que, em 1905, ocasião em que Mineiros foi elevada à condição de vila e município, foi nomeado o primeiro Intendente Provisório. Inaugurou-se, desde então, em Mineiros, a política implantada no Brasil após a decadência do ouro, em meados do século XIX, e que foi adotada pela República: “a política dos Coronéis”.

Dessa política se pode vislumbrar ainda nos dias atuais, em Mineiros, alguma herança, que se pode ver nas disputas políticas, através das quais o poder permanece nas mãos das antigas oligarquias.

Após a nomeação do Coronel Para-Assu, os demais intendentes que assumiram até 1930 foram “eleitos”. É bom lembrar que isso não significava democracia, já que eles eram eleitos “num tempo em que o que valia mesmo era a chamada papeleta do voto e a opressão comandada pelos coronéis” (SILVA, 1984: 23).

Nesse caso, formavam-se grandes currais eleitorais, o voto era de cabresto, a população personificava a figura dos coronéis e nada podia ser feito sem a permissão deles.

É possível afirmar que a influência dos coronéis em Mineiros atingiu todos os segmentos da sociedade. Havia, sim, oposição de grupos familiares e mesmo de alguns profissionais liberais que, contudo, não conseguiram fazer prevalecer, diante da força dos coronéis, os seus interesses.

A partir de 1909, depois que o major Caetano de Rezende criou o “Primeiro Código de Postura”, quatro escolas foram criadas, “duas do sexo feminino, duas do sexo masculino, com uma de cada sexo na sede do município, as duas outras a serem mantidas em qualquer ponto da zona rural, de preferência nos locais mais povoados”
(SILVA, 2005: 30).

As escolas, durante a Primeira República, mantinham um sistema dual, porque vigorava a Constituição de 1891, com a “descentralização do ensino”, segundo a qual o ensino fundamental e o ensino profissional ficavam sob a responsabilidade do Estado. Os municípios dependiam, portanto, da boa vontade do governo estadual para a construção de escolas. Em Mineiros, por muito tempo, elas permaneceram com um número muito reduzido. Só em 1942 é que se criou o Grupo Escolar Pedro Ludovico Teixeira.

Entre os dados históricos constituídos ao longo de nossa pesquisa merece destaque aqui a grande quantidade de pessoas que não freqüentavam a escola por falta de acesso às instituições de ensino. O ensino gratuito e para todos ainda não era uma realidade no Brasil, muito menos no interior do país.

Uma das entrevistadas, Sra. B (88), afirma: “Eu brincava o dia inteiro, porque não estudava, não tinha escola pra nóis, professor era difícil e caro, minha mãe não podia pagar” (Entrevista em, 12/12/2006).

Isso comprova que o município dependia da boa vontade e disponibilidade dos coronéis e da sua boa relação com o governo do Estado para conseguir benefícios. A maioria dos intendentes do período de 1905 a 1930, com exceção de Azarias Teodoro de Oliveira e Urbano Alvim dos Santos, pertencia à família Carrijo de Rezende e os que não tinham parentesco com essa família eram escolhidos por indicação de seus mandatários, que faziam prevalecer sobre a população o mandonismo político.

Os Carrijo de Rezende ostentavam títulos de coronel, major, capitão, através da compra desses títulos. O valor era estipulado pelo poder público, por isso podiam assumir o comando do Município de Mineiros.

A formação da cidade também está ligada à questão de sua localização. Mineiros situava-se na rota para se chegar a Lajeado (atual Guiratinga-MT), importante centro de garimpo que atraía muitos baianos. Desse modo, (…) população de um arraial baiano, inteira, que marchava de mudada – homens, mulheres, as crianças, os velhos, o padre com seus apetrechos e cruz e a imagem da igreja – tendo até bandinha-de-música, como vieram com todos, parecendo uma nação de maracatu!

Iam para os diamantes, tão longe, eles mesmos dizendo: ‘…nos rios…’ Uns tocavam jumentos de almocreve, outros carregavam suas coisas – sacos de mantimentos trouxas de roupa, rede de caroá a tiracolo.

(…) Rezavam, indo da miséria para a riqueza. (ROSA, 1986: 46) Alguns migrantes baianos que tinham como destino Lajeado acabavam se fixando em Mineiros. Outros ficavam por alguns meses, depois seguiam para o destino previsto, ou seja, Lajeado. Povoa Neto (1998: 215) chama esse estilo de migração como “rede de itinerários possíveis”. Se o local escolhido não correspondesse às expectativas dos migrantes, tentavam outro local, até se fixarem em uma das localidades da “rede de itinerários possíveis”. Esse tipo de migração era e continua sendo uma realidade no Brasil, porque o homem, ao buscar atender suas necessidades, acaba saindo de seus lugares de
origem em busca de melhores condições para sobreviver.

A partir deste contexto, muitos baianos acabaram se fixando em Mineiros, num processo caracterizado como “migrações experimentais ou definitivas”. No caso do Sr A (103), ele veio para Mineiros em 1930, ficou dez meses, retornou para Santana dos Brejos-BA e, em 1945, voltou para Mineiros, prevalecendo, assim, a migração definitiva.

Até 1945, dois principais fluxos de migrantes16 (mineiros e baianos) se fizeram presentes. A partir de 1960, os Monges Beneditinos da Saint Benedict’s Abbey, de Atchison, Kansas – EUA, chegaram à cidade, com as experiências vivenciais de seus mosteiros. Esse grupo, muito ligado à agricultura, à educação e à arte, influenciou muito a sociedade mineirense e a toda a região, tornando-se referência para vários
empreendimentos.

Suas contribuições, segundo o Prior Dom Josias Dias da Costa, em entrevista realizada no decorrer de nossa pesquisa (2007), se deram não somente na esfera religiosa, mas também nos setores econômico, científico, sócio-cultural e político.

Do ponto de vista econômico, durante a década de 1960, é possível destacar: a melhoria do gado leiteiro, através da inseminação artificial e dos cruzamentos; o plantio de arroz, algodão, soja, milho, sorgo e novas pastagens, e a criação da primeira grande cooperativa agropecuária do Estado de Goiás. Essa cooperativa, iniciada com alguns associados, se expandiu para vários municípios de Goiás e Mato Grosso e serviu de base para o surgimento do cooperativismo em outros municípios, como Rio Verde e Goiatuba.

No aspecto científico, desde o fechamento do Centro Meteorológico pelo governo, foram os monges os responsáveis pela: continuidade dos métodos de medição das chuvas e temperaturas máxima e mínima, transmitidas pela única emissora de rádio AM – “Eldorado de Mineiros”; melhoria da produtividade dos chapadões, fazendo a correção do pH, e experiência com novos tipos de pastagens, como o brachiarão e a humidícula.

Esta vasta inserção também ocorreu nos campos social e cultural, promovendo: abertura de creches (OSPDES – Obras Sociais da Paróquia Divino Espírito Santo), escolas, cursos de computação para crianças da periferia e abrigos para idosos; participação no
ensino de 3º grau; apoio à criação de clubes recreativos; construção de centros culturais e incentivos ao teatro e outras atividades artísticas; construção do Centro de Plantas Medicinais na Comunidade do Cedro;17 introdução do escotismo e de projeto de apadrinhamento que atende a mais de mil crianças necessitadas.

De modo sistemático, o conjunto de ações do grupo de monges foi acompanhando atividades de natureza política, sendo eles co-participantes: da criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais; das associações de moradores nos bairros; das ONGs, 16 Os migrantes negros, segundo a História oficial, não fariam parte deste fluxo de migrações, pois são considerados objetos de pertencimento dos seus donos, no caso os mineiros.

Comunidade do Cedro: Esta comunidade surgiu em 1860 com Francisco Morais, conhecido por Chico Moleque, um ex-escravo que comprou uma parte da Fazenda Flores, localizada às margens do Rio Verde, distante a 5 km da cidade de Mineiros, formando um quilombo de agricultores.

Como se pode notar, a história da cidade de Mineiros se entrecruza, a partir de 1960, com a história de grupos sociais e religiosos, favorecendo uma expectativa de uma posição progressista, como a dos antigos religiosos cristãos católicos que participaram na economia e se constituíram lideranças político-social e cultural.

A abertura de financiamentos pelo governo federal, na década de 1970, com juros baixos e com dez anos de carência para o pagamento da dívida, fez com que as bem sucedidas pesquisas realizadas pelos monges nas terras dos chapadões se tornassem produtivas, com a devida correção da acidez do solo e a utilização de adubos. Migrantes do sul do Brasil, especialmente os gaúchos, chegaram à região e deram impulso à mecanização já iniciada e ao cultivo de extensas áreas, efetivando o capitalismo industrialdesenvolvimentista e a produção de grãos para o mercado interno e, sobretudo, para exportação, como interessava ao governo, que financiava a produção.

A produção agrícola em grande escala, somada à criação de gado leiteiro, provocou mudanças nas relações econômicas, políticas e sociais existentes. As mudanças às quais nos referíamos dizem respeito às mais diversas esferas das relações sociais e culturais: os hábitos alimentares, as construções de casas, a linguagem, a forma de medir a terra – em lugar do alqueire passa-se a adotar o hectare – e mudaram consideravelmente as relações patrão-empregado.

Os gaúchos se constituíram como um grupo cultural fechado e mantiveram suas tradições, expressando-se pela música e pelas danças típicas, criando-se o Centro de Tradições Gaúchas – CTG, assumindo um programa na rádio aos domingos e introduzindo costumes alimentares, como o “churrasco gaúcho”, a “maionese” e o chimarrão.

Com as mudanças que se processavam no campo econômico, as terras, em grande parte, foram vendidas aos gaúchos. Assim, os camponeses sem terra – especialmente os arrendatários denominados “agregados” ou “meeiros” – e a Comunidade do Cedro foram os que mais sofreram, porque as máquinas substituíram sua força de trabalho. Com isso, o antigo modo de produção familiar, de natureza pré-capitalista, cedeu lugar ao modo de produção propriamente capitalista, com a mão-de-obra típica desse sistema, que é a mão-de-obra assalariada.

Ao analisar esse processo e o estabelecimento dessas relações, podemos recorrer às idéias expressas nas obras de Marx e Engels (1984) para entendê-las. De acordo com os citados autores:

(…) os indivíduos procuravam apenas o seu interesse particular, o qual para eles não coincide com o seu interesse comunitário – a verdade é que o geral é a forma ilusória da existência na comunidade -, este é feito valer como um interesse que
lhes é (alheio) e (in-pendente) deles, como um interesse (geral) que é também ele, por seu turno, particular e peculiar, ou eles próprios têm de se mover nesta discórdia, como na democracia. (p. 38)

No caso de Mineiros, observa-se ausência de intervenções governamentais – em níveis municipal e estadual – que pudessem refrear a expropriação de um número significativo de indivíduos da Comunidade do Cedro em favor de interesses particulares de alguns novos proprietários. Desse modo, pode-se afirmar que a Comunidade do Cedro, especialmente, se colocou em condição de submissão, gerando-se os efeitos perniciosos como desemprego, aculturação, êxodo rural e outros.

Esta interpretação da história da cidade de Mineiros é velada na memória individual e coletiva dos mineirenses, porque certos fatos foram selecionados para fazer parte desta história, outros precisam ser esquecidos e não condizem com a história. Isso caracteriza o que Pollack (1998: 7) chama de “enquadramento da memória”.

O exemplo desta assertiva é a questão da presença, na região, há 11 mil anos, de povos primitivos vindos da Cordilheira dos Andes que, segundo SILVA (2007), eram caçadores e coletores silvestres que moravam em grutas e passaram, no decorrer da história, a plantar e cultivar a terra.

Deles descendem os índios atuais: caiapó, bororo, xavante, tupi-guarani e outros, eliminados em sua maior parte pela insânia dos “civilizados”. Antigos moradores, como o Sr. E (65), também atestam a existência de índios na região, inclusive contam sobre essa temática.

Aqui nesta região (Pinga-Fogo) tudo era habitado por índio, inclusive o “Vilela Brabo” foi morto por um índio da tribo dos caiapós, aqui mesmo nesta região. Ta vendo esta gruta, eles moravam por aqui. (Sr. E (65), entrevista em: 20/10/2007)

Apesar de reconhecerem a presença dos índios na região, os moradores não os consideram como primeiros habitantes. Na mesma situação encontram-se os migrantes, depoimento dado durante visita realizada na região com alunos de Pedagogia, em 2007.

Negros, que não são vistos como co-fundadores da cidade e apenas são lembrados como escravos trazidos pela família Carrijo de Rezende de Minas Gerais.

Para nossos entrevistados, a história do povoamento de Mineiros começou com a vinda desta família. Os demais – negros, índios e brancos (baianos e sulistas) – não tiveram nenhuma relevância e foram suprimidos da história oficial e da memória do povo.

O hino de Mineiros, autoria de Rildo Rodrigues de Oliveira, mostra exatamente este “enquadramento da memória”.

[quote_center](…) Hei de cantar-te oh! Mãe Mineira,
Pois no teu seio soubeste cuidar
Dos adotivos e dos verdadeiros
Seus filhos queridos vão sempre te amar![/quote_center]

Na memória coletiva da comunidade, os Carrijo de Rezende são considerados os “filhos verdadeiros”, como são retratados no hino. Os demais (negros, baianos e sulistas) são os filhos adotivos. Até certo ponto, é possível afirmar que o que houve com essa memória coletiva foi um processo de “negociação”, como destaca Pollack (1989).

Porém, isso não é algo natural. No jogo de forças e tensões que se estabeleceram entre os grupos hegemônicos e os “desapropriados”, surgiu a tentativa de domínio cultural, impelindo à construção de mediações e significações que passam pela convivência com imagens e situações que, ao indicar uma única interpretação da história, exclui a possibilidade de resistência.

Coronel Carrijo e de seus descendentes: Seu nome era Joaquim Carrijo, filho do principal fundador de Uberlândia – Felisberto Alves Carrijo. Ele pertencia à guarda nacional, seu nome está gravado na praça, na escola e nas brincadeiras que fazem com o nome dos Carrijo.

A memória é assim guardada e solidificada nas pedras (…) Quando vemos esses pontos de referência de uma época longínqua, frequentemente os integramos em nossos próprios sentimentos de filiação e de origem, de modo que certos elementos são progressivamente integrados num fundo cultural comum a toda humanidade. (POLLAK, 1989: 9)

De maneira geral, é difícil discordarmos da história conhecida porque, quando a memória e a identidade estão suficientemente constituídas, instituídas e amarradas, os questionamentos que ocorrem principalmente de grupos externos e os problemas colocados pelos outros não chegam a provocar necessidade de reorganização, nem a nível coletivo nem individual.

Os migrantes negros que vieram com os mineiros para a região não possuem uma memória solidificada nas pedras da cidade, nem os baianos; mas esta memória é subterrânea e resiste ao esquecimento do povo mineirense, especialmente na comunidade do Cedro – formada por negros ex-quilombos. Mas, por que a comunidade cedrina é importante para a cidade de Mineiros?

Primeiro, os migrantes negros vieram junto com os mineiros para a região; segundo, os negros eram os braços e os pés dos homens brancos; terceiro, a cultura dos negros acabou se misturando com a dos brancos. Não há como negar essa miscigenação cultural que aconteceu em Mineiros, como em todo o Brasil.

Segundo a antropóloga Baiochi (1983), era comum, entre os brancos, presentear os filhos no casamento com um casal de escravos. Foi através deste ato que um negro chamado Francisco Antônio de Morais (conhecido como Chico Moleque) e sua esposa Rufina foram doados como escravos a João Pantaleão e Virgínia. É neste momento que se iniciou a história da formação do quilombo em Mineiros.

Chico Moleque, em 1885, ainda na condição de escravo, conseguiu comprar uma parte da fazenda Flores do Rio Verde, de propriedade de Galdino Gouveia de Morais e sua esposa, dona Isabel Cândida da Silva.

O Sr. Hm (66), bisneto de Chico Moleque, em entrevista realizada no decorrer da pesquisa, conta que “ele comprou primeiro as terra, depois a liberdade e que ele trabaiava até dia do domingo de modo a pagar a liberdade dele e de sua muié” (Entrevista em, 16/06/2006).

Foi a partir deste cenário que surgiu o Quilombo do Cedro, hoje conhecido como “Comunidade do Cedro” (ex-quilombo), distante 5 km da cidade de Mineiros. A expressão “cedro” se deve à grande quantidade de cedro rosa existente na região. O quilombo que se formou era de agricultores que, além de plantar, caçavam e coletavam os frutos do cerrado. Quando Chico morreu, a comunidade do Cedro continuou com seus
afazeres e seus rituais, mas por volta de 1970, com a chegada dos migrantes do Sul brasileiro, foi a que mais sentiu os efeitos dessas mudanças.

Na concepção de Ioris (1999), o estudo daquela comunidade mostra que:

[quote_right]Ao longo de uma formação, a comunidade do Cedro sempre esteve inserida na economia regional, na qual, até a década de setenta, predominou a pecuária extensiva. Nesta atividade, os moradores do Cedro, trabalhavam para os fazendeiros da região como boiadeiros, vaqueiros, meeiros ou lavradores de empreita. […] com a implantação na região da atividade pecuária a agrícola de forma intensiva, esta ultima baseada na monocultura da soja e do arroz, a comunidade do cedro passou a sofrer fortes mudanças na sua forma de viver. […][/quote_right]

Em conseqüência deste trabalho de tempo integral, as pessoas da comunidade do Cedro diminuíram, sensivelmente, a produção em suas terras, tornando-se muito mais dependentes dos produtos da cidade. (IORIS, 1999: 14-15).

Deve-se concluir, desse modo, que foi através dos aspectos econômicos, principalmente na relação homem-trabalho, que não só os ex-quilombolas, mas toda a comunidade mineirense sofreu alterações nas suas relações, mudando seus costumes, seus
valores e assumindo outros.

Marx (2003) enfatiza que as causas desse processo não são dependentes apenas das vontades individuais dos homens. De fato, “(…) na produção social de sua existência, os homens estabelecem relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais” (MARX, 2003: 5).

Assim que essas relações se estabelecem, os conflitos são inevitáveis porque as forças produtivas materiais da sociedade acabam entrando em contradição com as relações de produção existentes. Para a comunidade compreender as mudanças que estavam ocorrendo, ela própria deveria entender essas relações contraditórias. Entretanto, não foi isso que ocorreu e a comunidade sucumbiu aos interesses dos brancos.
Mas, ainda assim, a Comunidade do Cedro19 sobrevive e resiste às influências do sistema capitalista.

Das 75 chácaras existentes no Cedro, 56 pertencem aos descendentes de Chico Moleque. A memória coletiva da comunidade permanece viva
entre seus parentes através da festa de Nossa Senhora da Abadia, durante a qual, todo ano, no mês de agosto, eles se reúnem, na igreja (com o mesmo nome), para rezar e cantar. A 19 Para maiores informações sobre a divisão das terras da Comunidade do Cedro, consultar: SILVA,
Martiniano José da. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava 1717-1888. Goiânia: Kelps, 2003

Esse é um trecho importante a ser lembrado da história de nossa cidade, parabéns para a ciscente Luciene Aparecida, pelo lindo trabalho de levantamento e estudo.

[quote_box_center]*Trecho da tese de pós graduação em Educação pela UFG com o título “UM OLHAR SOBRE A INFÂNCIA E AS BRINCADEIRAS A PARTIR DE RELATO DE IDOSOS DA CIDADE DE MINEIROS”, da discente LUCIENE APARECIDA PINTO COSTA PEREIRA[/quote_box_center]

Download da Tese Completa. Fonte: Google.

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